quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os devoradores de luz.

Em busca de uma resposta sobre a existência ou não dos comedores de luz, ele deu a volta ao mundo e gravou entrevistas com as mais diversas personagens, munido de uma pequena câmera. Straubinger falou com cientistas e com pessoas que tiveram experiências com a inédia – a renúncia total ao qualquer tipo de alimento convencional.
É possível viver sem qualquer alimento? Esta pergunta é capaz de abalar as concepções vigentes do mundo, despertar a cólera de céticos e levar até os limites da ciência. Não apenas iogues afirmam ser capazes de subsistir sem comida nem bebida: também no Ocidente, onde (quase) tudo é explicável através da lógica, há pessoas que afirmam serem capazes de renunciar permanentemente à alimentação.
O jornalista vienense Peter-Arthur Straubinger ficou fascinado pelo fenômeno. E ao mesmo tempo surpreso de que houvesse tão pouca informação fundamentada sobre esse, ao iniciar as pesquisas que levaram ao documentário Am Anfang war das Licht (No princípio era a luz).
Originalmente esses registros deveriam ser apenas sua base de pesquisa, porém grande parte das entrevistas passou a integrar o filme que estreou recentemente na Alemanha.
Temor da publicidade
Após ocupar-se do tema durante dez anos, Peter-Arthur Straubinger está agora firmemente convencido de que existem mesmo seres humanos capazes de manter o jejum, sem sucumbir à inanição e à desidratação. E também descobriu por que, antes dele, ninguém se aprofundara no assunto.
"A maior parte das pessoas que pratica a inédia evita a projeção pública, temendo ser rotulada como enganadores ou charlatães." E como, a rigor, não têm a menor necessidade de convencer ninguém de nada, elas não fazem grande alarde a respeito.
Uma exceção é Jasmuheen, considerada guru dos comedores de luz, e que ganha uma pequena fortuna com seus livros e seminários.
Fenômeno com tradição mundial
Não importa que nome se dê ao fenômeno, se bigu, prana ou respiratorianismo: culturas diversas possuem designações diferentes porque a renúncia consciente à alimentação apresenta uma longa tradição, não tendo chegado à Europa somente a partir das livrarias esotéricas e escolas de ioga.
"Por um lado, há um sem número de relatórios anedóticos, atravessando épocas, religiões e culturas, e a verificação cética sempre faz parte desses relatórios", explica o cineasta austríaco.
Já Ludwig 2º, rei da Baviera (1845-1886), mandou internar numa clínica em Munique a "Bebedora de Água de Frasdorf", e o relatório da investigação sobre o caso confirma não se tratar de uma fraude. Também consta que a criada bávara Therese von Konnersreuth (1898-1962) nutriu-se durante vários anos apenas da sagrada comunhão.
Provas empíricas
Entretanto Straubinger não se contentou apenas com exemplos históricos, hoje impossíveis de verificar. Estudos atuais, como os realizados por médicos indianos com o iogue Prahlad Jani são provas eloquentes.
Durante as duas semanas em que se submeteu a ser vigiado por câmeras de vídeo numa estação hospitalar, ele passou sem alimento ou água. Nem foi ao sanitário, embora mantendo índices sanguíneos normais e sem perder consideravelmente tecido adiposo.
Então, se toda uma equipe médica não esteve envolvida numa fraude, o fenômeno da nutrição pela luz tem que existir. Por outro lado, o tema é quase tabu para os pesquisadores contemporâneos, por confrontá-los, inevitavelmente, com as fronteiras do que é explicável pela ciência.
Energia organizada
Mesmo assim, mantém-se o desafio de explicar esse fato aparentemente inacreditável, e o documentário dá a palavra a biólogos e físicos quânticos, médicos e nutricionistas. Contudo, a questão "como funciona a inédia", é menos premente para os próprios "comedores de luz" do que para o mundo à sua volta. Dentre eles se encontra até mesmo um químico, que no filme constata de forma lapidar: "Simplesmente me sinto bem, desde que não como mais nada".
Straubinger também falou com a autora Jasmuheen, que descreve em seus livros um processo de 21 dias como caminho para inédia. No princípio era a luz adverte para os perigos de autoexperimentos ambiciosos que podem ter fim fatal. Pois geralmente a renúncia ao alimento se instaura como efeito colateral de um estado de consciência alcançado, por exemplo, através da meditação sistemática.
Essa noção se conecta com a teoria de Dean Radin, pesquisador de fenômenos da consciência que se ocupa de parapsicologia e telepatia.
"A consciência é, aparentemente, um princípio organizador. Energia organizada parece ser aquilo de que precisamos para sobreviver. Nós a consumimos normalmente com a comida, nas plantas e, indiretamente na alimentação animal, com a energia solar lá armazenada. E, em casos extremos, talvez baste mesmo para sobreviver fisicamente apenas a intenção, e já assimilamos essa energia organizada de nosso meio ambiente."
Os limites do científico
O fenômeno da nutrição através da luz permanece um enigma. Porém o documentário de Straubinger também tematiza a reação dos cientistas, quando pesquisas confirmam o aparentemente impossível.
A intenção do jornalista é chamar a atenção para a dificuldade em se admitir novos modelos conceptuais, sem abalar a credibilidade da ciência. Na realidade, seu filme não trata apenas do sensacional tema dos comedores de luz, mas também de questionar a visão materialista de mundo.